Georg Langsdorff

Georg Heinrich von Langsdorff foi um médico, diplomata, naturalista e explorador nascido na Alemanha e naturalizado russo. Langsdorff percorreu o Brasil em uma expedição, que começou em 1821 e terminou em 1829 e percorreu ao todo 17 mil quilômetros. Durante a expedição Langsdorff e sua equipe coletavam plantas e animais que depois seriam enviados para estudo na Rússia. Em 1824, sua expedição passa por Minas Gerais e por Viçosa, que na época era conhecida por
Santa Rita do Turvo. Nós transcrevemos, a seguir, o trecho do diário, que Langsdorff narra sua passagem por Santa Rita do Turvo (Viçosa) e pela Fazenda Paraíso.

"29 de julho de 1824
(...)

Local onde exisitiu a Fazenda Paraíso, de Dona Antônia Angélica da Silva e Castro, por onde passou Langsdorff, hoje conhecido como 'Rua Nova'.

Nosso destino: Santa Rita. Disseram-me que seriam 2 léguas, mas são boas 2 léguas e meia (12km). Partimos às 9h e alcançamos a capela de Santa Rita a uma hora da tarde. Inicialmente, o caminho segue morro abaixo até a Fazenda João Geraldo; depois passa por floresta virgem e por caminhos menos ondulados até Paraíso, fazenda da Srª D. Antônia, onde vimos algumas bananeiras e um vale que se abria para vários lados. Deixamos a fazenda à nossa esquerda e pegamos um bom caminho na encosta de um monte. A partir daí, um excelente caminho levou nos até Santa Rita, localizada num vale plano. Nos arredores de João Geraldo, encontramos as capoeiras cheias de fetos (samambaias), nada além disso. Essa planta indica um solo ruim, esgotado e seco, onde nada mais cresce, nem mesmo o algodão, que requer um solo muito seco. Outras capoeiras, cobertas de verdes arbustos, oferecem boa produção de feijão e milho.

Capela de Santa Rita do Turvo, recontituída da lembranca de Aurélio Garcia
Bousas. Ilustração a bico de pena de Alexandre Alencar Guerra, reproduzido
do livro 'Nos alvores da História de Viçosa' de Alexandre Alencar.

Pouco antes da capela de Santa Rita, passamos por um belo engenho Engenho de Santa Rita bem conservado, ao lado de várias casas. O conjunto tem aparência de aldeia; as casas são práticas e bem conservadas.

Junto à capela de Santa Rita, existem poucas casas e duas vendas. Ali fomos recebidos friamente; só a muito custo conseguimos hospedagem e abrigo.

Não é fácil analisar o caráter, os costumes e hábitos dos moradores locais. Em São João dei Rei, hospedamo-nos numa pousada (venda e estalagem), e, obedecendo ao costume local, quisemos nós mesmos preparar nossa refeição. O hospedeiro protestou, dizendo que lá não havia esse costume. Nós deveríamos apenas dizer o que gostaríamos de comer que ele providenciaria. Três dias depois, apresentounos uma conta exorbitante. Ele nos enganou habilmente.

Aqui resolvemos pedir uma estalagem. A princípio, não queriam nos dar de forma alguma, mas protestei. O estalajadeiro, querendo reparar seu comportamento, alegou que não dispunha de recursos para hospedarnos como desejaria; e que, se tivesse sabido que queríamos apenas um rancho, ele não teria feito nenhuma objeção.

Como a lenha ficava longe, e nosso pessoal estava ocupado, pedi à cozinheira que nos preparasse galinha, que havíamos trazido, com arroz, em troca de pagamento, mas ela se negou a fazêlo, alegando que não saberia preparála ao nosso gosto. Nós lhe pedimos, então, que a preparasse a seu modo e, assim, pudemos receber o nosso almoço. Como foi diferente o comportamento do nosso hospedeiro em São João Del Rei!

Desde que estamos de volta a Mato Dentro, especialmente desde a Aldeia da Pomba, as léguas desta região têm nos parecido mais longas do que em outros lugares. Hoje, finalmente, obtive uma explicação provável para isso. A maior parte das terras aqui foi tirada dos índios e logo dividida em sesmarias de meia ou uma légua, distribuídas aleatoriamente entre os habitantes. Cada um tratou de estender, o máximo que pôde, a légua ou meia légua que lhe coube.

24 de julho de 1824
A capela de Santa Rita fica num vale extenso entre duas montanhas cobertas de florestas. Ela foi construída há 40 anos nas terras do proprietário do moinho de cana. As capelas normalmente atraem novos colonos, artistas e artesãos, que aqui
são sapateiros, alfaiates, ferreiros e eventualmente também um carpinteiro. Esta capela, porém, ficou muito tempo isolada, porque o proprietário fundador não quis ceder suas terras. Em função disso, as pessoas estabeleceram-se o mais perto possível, do outro lado de um pequeno córrego, distante da capela cerca de 10 minutos, na encosta deum morro bastante ingrato, que nemágua potável oferecia. Mas, quando oproprietário faleceu, a comunidade,com a intervenção do bispo, solicitouaos herdeiros e recebeu o pequeno pedaço de terra onde está a capela,como propriedade da protetora daigreja, Santa Rita. Agora estão começando a assentar lá as casas do arraial. A localização é muito boa, de forma que vai ser possível construir uma vila bonita e bem organizada, com ruas largas e praças abertas. O Sr. Guido Marlière, como líder dos índios a quem pertencia esta região, foi incumbido de dirigir as obras.

O clima de Santa Rita difere muito do de Presídio. Hoje cedo, às 7h, fez +2°R (2,5°C). Em fins de agosto e início de setembro, quando em outros lugares já começa a esquentar, aqui e nas redondezas ainda está gelado. Todo ano, a água congela dentro das vasilhas. Bananas, café e açúcar não crescem muito por aqui. Planta cana-de-açúcar tão logo chega o frio. Ela cresce rápido e pode ser cortada depois de 10 a 11 meses, de forma que é preciso trabalhar muito afinco para poder cortar e colher a cana-de-açúcar antes que chegue a geada.

Arroz, milho, feijão e algodão prosperam bem e constituem riqueza da terra.

Algumas pessoas compram o algodão bruto, limpam no por meio de descaroçadores movidos a água. Cada máquina apronta diariamente quatro arrobas. O algodão é, então, prensado em fardos de quatro arrobas. Dois fardos constituem o carregamento de uma mula e, dessa forma, são transportados para o Rio de Janeiro.

O proprietário da casa onde ficamos hospedados é comerciante e atua particularmente no comércio de algodão. As negras são obrigadas a fiar o algodão em roda de fiar. Geralmente produzseum tecido groseiro que é igualmente transportado para o Rio em fardos de 30 a 32 varas e que aqui é utilizado para vestir os negros e fazer camisas. O estalajadeiro, que finalmente nos acolheu, por piedade, e arranjou enxergões para deitarmos, chama-se Ignacio Lavança. Ele tem uma fazenda e é também morador em Batata, Freguesia de Sumidouro, perto da cidade de Mariana, e possui lá uma fábrica de pedra sabão. Foram as vasilhas desse tipo mais bonitas que já vi; dentre elas, havia panelas fundas em forma de vaso, com formas muito bonitas.

No decorrer dos últimos 44 anos, nas redondezas da capela, construíramse 127 fazendas. Três mil é o número de almas. Todos os índios mudaram-se daqui. A capela pertence à Freguesia do Pomba.

25 de julho de 1824
Quando conseguimos reunir todos os nossos animais, já eram 2h da tarde,portanto, muito tarde para seguirmos nossa longa viagem. Resolvemos, então, ficar aqui e pedir um outro pasto para os nossos animais.

Já mencionei acima que a produção de algodão é a principal atividade comercial daqui e que, por isso, muitos habitantes têm seus próprios descaroçadores, isto é, máquinas que separam o caroço do algodão. Ontem visitamos o Engenho de Santa Rita e achamos as instalações muito bonitas e práticas. Desviou-se, de longe, um canal até aqui. Em nenhum outro lugar do Brasil vi aproveitar-se tão bem a água. Com ela movem-se um moinho de açúcar acompanhado de monjolo, uma moenda de grãos, dois monjolos, uma serraria e uma máquina para tirar as sementes do algodão. Uma outra máquina semelhante limpadiariamente quatro arrobas de algodão. Essas máquinas, dispostas uma ao lado da outra ou uma emfrente à outra, são movidas pela mesma água. Durante a noite, tivemos a segunda chuva desde a partida da Mandioca a primeira foi em Mercês. Esta aqui persistiu àmanhã toda.

25 de julho de 1824.

Partida de Santa Rita. Os animais apareceram tarde, deforma que só pudemos deixar a estalagem, que batizamos de "Estômago Vazio", por volta do meiodia.O pasto para os animais era ruim; só com muito esforço consegimos uma galinha e um pato.Apesar de a capela estar localizadaem meio a capoeiras e estar cercada por florestas altas, meu pessoal não encontrou lenha suficiente para fazer a comida; alguns tiveram que buscá-la tão longe que acabaram se atrasando hoje cedo e partiram semcafé da manhã. (...)"

SILVA, DGB., org., KOMISSAROV, BN., et al., eds. Os Diários de Langsdorff [online]. Tradução Márcia Lyra Nascimento Egg e outros. Campinas: Associação Internacional de Estudos Langsdorff. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1997. 400 p. Vol. 1. ISBN 85-86515-02-7. Disponível em SciELO Books .